Weby shortcut
LOGO SAUDAVELMENTE
Marca da PROCOM - Pró-Reitoria de Assuntos da Comunidade Universitária
ufg_logo

Sobre o sentido de usar drogas

Atualizado em 26/06/15 09:06.


SOBRE O SENTIDO DE USAR DROGAS

Lívia Mesquita de Sousa
                                                                                  liviams@ddrh.ufg.br
 
São vários os aspectos envolvidos na dependência química. Eles se relacionam às próprias características das drogas, a questões orgânicas, ainda que não se tenha ainda chegado a uma compreensão definitiva sobre isso, questões sociais ou culturais, e por fim, ao aspecto psíquico ou psicológico. Podemos definir a droga, de uma maneira muito simples, como uma substância que causa alguma alteração psíquica.
 Mas não é simplesmente a droga que tem características perigosas, há algo nas pessoas, em algumas mais do que em outras, que as leva a firmar uma relação com a droga de muita intimidade, como algo que passa a ter um significado muito importante em suas vidas. É isso é uma das causas que fazem com que a droga seja um problema tão sério em nossa sociedade. Naquele filme Traffic é muito interessante ver que a pessoa responsável pela política antidrogas de seu país não conseguiu evitar que sua própria filha se tornasse uma dependente. Justamente por que não é só um problema de ter muita oferta de drogas por aí (e a gente sabe que tem mesmo, muita propaganda, muitos bares, muita facilidade de acesso), mas é também um problema de que algumas pessoas encontram nas drogas algo que se torna extremamente importante para elas.
            Alguns exemplos de pessoas dependentes podem ilustrar um pouco isso:
Uma pessoa me disse que quando começou a fumar maconha, começou com uma turma com quem ia para um rio perto de sua cidade para conversar e fumar. Essa pessoa disse que algumas vezes essa turma saía reunida para barzinhos e a sua enorme sensação era de que eram seres superiores, melhores que as outras pessoas.
Uma outra pessoa que fazia um uso de várias drogas (álcool, maconha e chá de cogumelo) começou a usar uma erva que fazia parte de um ritual religioso. Essa pessoa dizia sempre que usar aquela erva naquele momento do culto dava-lhe uma enorme sensação de clareza, como se toda a sua vida pudesse ser compreendida ali naquele momento. (Isso lembra também aquelas pessoas que acreditam que dirigem melhor quando estão embriagadas).
Uma outra pessoa, que fuma muito, me disse que o cigarro é seu amigo.
Essas sensações (superioridade, clareza, amizade) que ocorrem junto com a sensação física provocada pelas drogas estão relacionadas à própria vida da pessoa, a sua história de vida.
Outro exemplo: um homem dependente do álcool me contou uma história muito interessante: disse que quando era criança e se machucava, seu pai que era usuário do álcool passava cachaça em seu machucado. Olha, que interessante: o álcool pode ter ganhado o significado de remédio para essa pessoa, de algo que alivia a dor, o sofrimento (o que costuma estar presente na dependência química) e sob a tutela de uma pessoa muito importante na vida de uma criança, que é o seu pai. Nesse caso, além da sensação de alívio relacionada à droga, comum nos dependentes, também tem a sensação de que a droga é autorizada pelo pai – o que também costuma acontecer muito se a gente pensar que as crianças costumam ver seus pais usando diversos tipos de drogas.
Esses efeitos psicológicos das drogas nem sempre estão claros para o indivíduo que as usa. Pelo contrário. Por exemplo, aquela pessoa do primeiro exemplo acima, que se sentia superior depois de usar maconha, só entendeu isso 10 anos depois quando já era dependente de cocaína e estava sob tratamento. Na maioria das vezes, o que ocorre é que o dependente químico não entende muito o porquê de procurar tanto a droga, isso fica muito confuso. Como uma pessoa, que também é dependente do álcool, me disse: acho que é a cabeça que é ruim.
            Não é a cabeça que é ruim, é que por motivos particulares na vida de uma pessoa ela encontra na droga um significado de algo muito importante para ela e muito difícil de ser abandonado. Num dos depoimentos reais mostrados numa telenovela, chamada “O Clone”, uma pessoa disse que quando engravidou e percebeu que teria que abandonar a droga, ela sofreu muito de se imaginar separada da droga, sentiu como uma perda. É mais ou menos como para uma criança que tem de deixar de mamar em sua mãe: uma separação muito difícil de fazer. Existe até a expressão de que o neném está viciado no peito. Se dá pena de ver uma criança sofrendo quando vai desmamar, dá para transferir essa idéia para a dificuldade de uma pessoa em abandonar sua dependência.
            É aí que nós entramos na questão dos perigos relacionados ao uso de drogas. Muitas vezes nós pensamos que “não faz mal tomar uma cervejinha com os amigos” ou “um cigarrinho de maconha não faz mal a ninguém”. Isso pode ser verdade, mas pode também ser extremamente falso. Por que? Porque aquela pessoa que vai passar de uma cervejinha para o alcoolismo não consegue saber que algo não vai bem com ela e que ela está usando a droga de uma maneira que lhe é prejudicial. É justamente por não conseguir perceber que não está dando conta de seus problemas (sentimentos muito ruins difíceis de suportar) que passa a usar a droga como uma solução. Este é o alerta mais importante que eu quero deixar: uma pessoa me disse que ao experimentar duas drogas juntas teve a sensação de que todos os seus problemas estavam resolvidos. Essa pessoa percebeu isso e tem “consciência” de que essa é uma solução temporária e ilusória. Menos mal, porque na maioria das vezes a idéia que se cria em torno do uso de drogas é que está se usando sem nenhum compromisso maior. Engano: o uso sempre é para alterar um estado psicológico, seja para se alegrar, para se acalmar ou para ficar com mais coragem. Quando uma pessoa precisa de uma substância para alcançar qualquer um desses estados, algo está errado, e precisa de atenção. Ë esta atenção que cada um de nós deve ter sempre consigo mesmo. Atenção para o risco de se ter como amiga a droga, aquela companheira sem a qual a festa não fica boa, o prazer não é completo, o corpo não fica relaxado. Esses estados (gostar da festa, sentir prazer e sentir-se relaxado) são naturais em nós e se nós estamos perdendo a capacidade de alcançar esses estados é que algo deve ser avaliado, em vez de buscá-los numa substância fora de nós.

 

MELHORANDO OS PADRÕES DO PENSAMENTO POSITIVO E
FORTALECENDO AS CONEXÕES.

Listar Todas Voltar